DJANGO!

Atenção! Esse post contém spoilers.

Demorei, mas na sexta-feira última consegui assistir à última película do Tarantino, Django Livre. Vamos por partes.

Confesso que quando vi que era com o Jamie Foxx, fiquei meio desanimada. Apesar de ele ter ganho o Oscar com Ray (que não vi até hoje por pura preguiça), só consigo me lembrar dele naquele filme com o Al Pacino, em que ele faz um quarterback chatinho e canta um rap ainda mais chatinho durante o filme.

Muitos dos meus amigos disseram que não gostaram do filme, que acharam longo e cansativo.


 Eu discordei de todo mundo. Saí do cinema de alma lavada e vou explicar o porquê.

Antes de  finalmente assistir ao filme, li muita gente dizendo que tinha achado racista, em especial por causa da repetição da palavra “n”, como diria Louie C.K. – atualmente um dos meus comediantes favoritos. Ora bolas, se a pretensão é que a atmosfera seja minimamente de época, é lógico que figurino, cenário, entre outras coisas devem acompanhar o tom. E, por que não o texto? Eu não vi nada de mais, mas veja bem, eu sou branca – apesar de essa cor de pele pálido-translúcida ir na contramão da cor da pele de quase todos os meus familiares, incluindo minha mãe.

Anyway, por que eu gostei tanto do filme?

Acho que pelos mesmos motivos que todas as pessoas que eu conheço acharam longo e desnecessário; por ser apenas mais uma história de vingança.

A Lola, daquele blog maravilhoso, disse que o filme pecou na montagem e que não deu o devido destaque às protagonistas femininas.

Eu tive uma leitura tão diferente que nem sei por onde começar. Django sou eu. Achei emblemático que Tarantino tenha querido voltar justamente a um período tão conturbado para contar (mais) uma história (genial) sobre vingança. Django somos nós, as mulheres, os negros e todos aqueles que continuam sofrendo as atrocidades de uma sociedade desigual. O protagonista é apenas uma metáfora, evidentemente não escolhida ao acaso, mas alguém que tem a oportunidade de se vingar de tudo aquilo que sofreu. Há também uma outra colocação que se faz importante e que, quando observamos, justifica sim uma série de escolhas (não só estéticas, mas de enredo e roteiro) feitas nesse filme. Django Unchained seria a terceira e última parte de uma trilogia sobre vingança. Aquilo que começou com Kill Bill Vol.I Vol. II  e passou por Bastardos Inglórios, termina agora. O foco foi, sucessivamente, das mulheres, para os judeus e, por fim, para os negros. Um por um, Tarantino deu voz  àqueles que durante séculos foram oprimidos e massacrados pelo simples fato de não se encaixarem em um padrão.Tem como não amar esse sujeito?

Django-Livre-Christoph-Waltz-e-Jamie-Foxx-26abr2012-02

 Na cena em que Django encontra os ex-feitores de escravos da fazenda onde tinha estado me foi particularmente cara. Acho que eu quase chorei. Senti como se o chicote que troca de mão naquela cena fossem os anos e anos de hipocrisia e opressão a que eu própria havia sobrevivido e, emocionada de catarse, pela primeira vez em muito tempo eu quis que um mocinho matasse o bandido.

Nesse ponto eu já estava achando que escolher o Jamie Foxx tinha sido sim um acerto e que ele nem estava fazendo feio perto do (monstro) Christoph Waltz – esse sempre ofuscando qualquer um que compartilhe cinco segundos de cena com ele.

Conforme o filme vai passando, o fato de Tarantino ter resgatado o famigerado faroeste acaba fazendo todo o sentido para as questões que eu consegui enxergar ali, apesar de o Spike Lee ter achado que não, enfim…

Achei também que o fato de o personagem do Christoph Waltz, que serve como guia – quase um Virgílio, se observarmos por um outro ângulo, não me parece reduzir ou sequer diminuir a raça ou mesmo a força da vingança do protagonista. Como aqueles que sofreram, como muitos outros, ou mesmo como eu, tudo que aparece no caminho de Django é força motriz para atropelar tudo que pareça se opor à inevitável vingança.

Num ponto eu concordo com a Lola: o filme carece de umas figuras femininas mais fortes. ainda que o filme dedicado à vingança feminina já tenha passado. A mocinha do filme, esposa do Django é uma versão bem água-com-açúcar da já adocicada Beatriz que esperava Dante às portas do paraíso,  e ironicamente espera seu salvador à moda antiga, às portas do inferno, numa propriedade de escravos que desafia nossa já atrofiada imaginação em reconstruir os horrores a que seres humanos submeteram outros seres humanos, por causa de uma coisa tão imbecil quanto a cor da pele.

Agora, cá entre nós, só eu que acho Leonardo DiCaprio um tremendo canastrão? Assim, achei que ele foi, no máximo, aceitável e no geral, pra mim, sua atuação passa por regular. Não achei que ele tenha feito nada de mais em Django e acho que não ter sido indicado foi um reflexo disso.

Mas a parte que talvez tenha mexido mais comigo foi a aparição (fantástica) de Samuel L. Jackson, representando e representando todos os estereótipos que vemos todos os dias: das mulheres que engolem o machismo a seco e começam a reproduzir o discurso, aos negros que julgam outros negros culpados pela imagem que tem e mesmo os pobres, que parecem nunca hesitar em condenar outros pobres e reproduzir o discurso da mídia golpista e nojenta do país em que vivemos.

Acho que foi por isso que sai do cinema me sentindo tão bem. Porque além de ser um filme à la Tarantino, cheio de cenas maravilhosamente bem filmadas,sangue, violência e outras cositas más  Django foi quase como um afago na alma, alguém dizendo assim – bem clichê, mas bem real: quem espera sempre alcança.

Ps: E já que se falou tanto em racismo, acho que não há ninguém melhor do que o Chris Rock pra explicar o que é.

Alice no país do Kindle

Era uma vez uma menina chamada Alice, que amava livros.

Words, even the pregnant words of poets, do not evoke pictures in my mind (A. Huxley)

Words, even the pregnant words of poets, do not evoke pictures in my mind (A. Huxley)

Ok, vou recomeçar. Era uma vez eu. Sempre tive mais livros que amigos – acho até que já disse isso aqui. Passei a vida dentro de bibliotecas. Desde que consigo me lembrar, ganho livros de presente, ou melhor, peço livros de presente (porque sou cara-de-pau). Quem me conhece sabe que é a melhor e mais fácil maneira de me agradar.

Devo ter hoje, na casa em que divido com meu marido e nossos quatro lindos gatinhos, algo que ultrapassa com folga 1.000 livros. É um orgulho, confesso.

Estou divergindo, mas esse é meu forte, né?

Há coisa de uns dois anos atrás um amigo me ligou e disse que tinha adquirido um negócio de última geração, que sequer vendia por essas bandas de cá e que se chamava Kindle. Entendi o que era, procurei na Amazon, achei o bicho elegante que só e ficou por isso mesmo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já dizia o sábio Camões.

De 2011 pra cá resolvi me especializar na pirataria de livros. Não é algo do que eu deva me orgulhar em particular, eu sei, mas tem coisa que você precisa ler (sempre a vida acadêmica com suas demandas impossíveis) e que só consegue porque uma alma caridosa resolveu digitalizar e colocar a cópia do livro no Scridb. É, vida de pós-graduando não é moleza. Fato é que dois anos e 12GB de livros depois, achei que era hora de comprar um e-reader pra dar cabo disso tudo.

Entrei na Amazon e descobri que a família Kindle tinha ficado enorme. Além de uma geração criada para competir com IPads e tablets, havia um modelo que muito me agradava, pois imitava papel. Acho que vou abreviar o meio da história e dizer apenas que a pessoa da minha família que, por acaso, tinha ido aos EUA, não encontrou em lugar algum aquilo que eu queria.

Mais ou menos no intervalo entre querer e não ter, a Livraria Cultura lançou o Kobo. Mais um e-reader, que faz exatamente aquilo que todos os outros fazem. Serve para armazenar um bocado de livros e não pesa como se tivesse nem um terço da metade do prefácio de Ulisses.

Vou fazer uma pausa aqui. Fico acompanhando – não só pelas famigeradas redes sociais – um debate bastante babaca sobre o fim do livro “físico”. Sinceramente, acho que nem quero perder meu tempo com isso porque o tipo de pessoa que, da mesma maneira que eu, usa um leitor desses, não pensa jamais em aposentar sua biblioteca real e trocar tudo por uns dois ou três cartões de memória de 32GB. Aliás, eu tampouco penso em parar de comprar livros ou dar qualquer tipo de preferência aos e-books.

Anyway, continuando, comprei um Kobo. Pesa menos de 200g, é preto e bem bonitinho. A tela tem realmente a cor de um papel meio acinzentado, muito agrádavel de ler e intuitivo de manusear. Fiquei bastante satisfeita, mas repito: livro é livro, isso é só um suporte pra ler meus pdfs de maneira mais agradável.

Agora vem a parte realmente legal: como meu pedido atrasou sabe-deus-por-que, ganhei um crédito de 100 dilmas das Livraria Cultura, que resolvi gastar num ebook. Afinal, eu queria saber quais eram as diferenças entre algo que é feito para dimensões tão modestas em oposição ao objeto livro que, para mim e pro Umberto Eco, é algo da ordem do fetiche.

Comprei Barba Ensopada de Sangue, do (vou chamá-lo de “jovem” apenas porque ele é meu contemporâneo) Daniel Galera e foi um grata surpresa. Daniel tem apenas 31 anos, mas escreve com maturidade e por vezes esqueci que estava lendo aquele livro num dispositivo tecnológico tão sofisticado. Ao terminar a leitura, tive a impressão de ter passado algumas semanas em Garopaba, daquela maneira que apenas os bons livros conseguem fazer com que a gente sinta. Enfim, no balanço final, acho que esse livro foi o grande culpado pela minha rápida adaptação ao leitor.

Mas assim, gostei tanto do livro que preferia tê-lo lido na edição normal, ou melhor, material, porque agora, enquanto escrevo estas linhas, gostaria de manusear o último livro que li em 2012 e que, sem dúvida, fechou meu reading year com chave de ouro.

 

O culto, o show e o sonho dos anos 90: divagações sobre uma noite na Fundição Progresso.

(quem vê esse blog abandonado pensa que eu devo ser a pessoa mais indisciplinada do mundo. Pior que não sou, mas acho que falta mesmo mais tempo-estímulo-blá-blá-blá pra publicar por aqui. A cada post eu juro que vou escrever com mais frequência, então, dessa vez, não digo nada. Apenas publico.)

Nunca fui fã de Los Hermanos. Ok, me crucifiquem. Não fazia parte do culto na década de 90, nunca acendi nenhuma velinha para a dupla de barbados barbudos Camelo/ Amarante. E ainda assim fui parar na Fundição Progresso, num dos shows da turnê “revival-precisamos-levantar-uma-grana-pra-escola-dos-muleques”, mais exatamente no dia 27 de maio. Coisas que só o amor pode explicar. Sim, claro, só o amor, porque eu passei o “late nineties” fazendo piadinhas com Anna Júlia e com o visual “glamdingo da PUC”, e acabei me casando com o maior fã possível de Los Hermanos. Digo o maior porque meu marido, carinhosamente chamado de patrão, é tão fã que alega ter ele próprio iniciado o look barba + camisa listrada +all star.

Enfim, experiências pessoas à parte, lá estava eu no túnel do tempo. Talvez aquela tenha sido a maior concentração por m2 de pares de all star, camisas listradas/xadrez e óculos quadrados. Tamanha era a vibe indie-hipster na porta da Fundição que até os vendedores de cerveja pareciam saber: ofereciam heinekens e stellas aos passantes.

De repente, eram os anos 90 que voltavam por uma noite.  Por isso mesmo, não consigo deixar de pensar que nossa geração sofre de uma nostalgia precoce, de um saudosismo sem explicação de coisas que, para respeitar um certo rigor histórico, aconteceram semana passada. Para que tudo faça mais sentido, coloco aqui um link para o episódio piloto de um dos meus seriados favoritos, Portlandia. Vou resumir rapidinho: Em Portland, os anos 90 nunca terminaram. Lá você pode usar camisa xadrez e óculos quadrados em paz.

Assim, minha teoria sobre essa nostalgia também se baseia no fato de eu ser niteroiense.  Niterói, minha querida cidade natal que, além de ser uma filial tupiniquim do Alabama, parece ser o elo perdido da civilização. Eu juro que em Niterói ainda é 1999, que ainda existem grunges, que as crianças pulam elástico, comem bala Juquinha e tomam Mineirinho. Aliás, não é de se estranhar que eu tenha vindo de um celeiro de gente esquisita, né?

Anyway, prosseguindo, por algum motivo que desconheço, os barbudos da PUC, junto com mais uma dúzia de coisas, se tornaram alvo de culto e verdadeiro “endeusamento”nos anos 90. Calma, ainda que eu não seja fã, também não vou falar mal. Aliás, apesar de não ser fã, reconheço que as letras das músicas são muito boas. Ah, lembrei, era isso que eu ia dizer sobre as letras.

O que faz as letras da duplinha barbada serem tão boas é o mesmo que faz, por exemplo, as letras do Chico, e de muitos outros: amor. Explico.

Confesso que, para acompanhar a animação do patrão durante o show tomei uma boa meia dúzia de cervejas. Revendo agora, acho que isso pode ter influenciado diretamente o que eu vou dizer a seguir. Chorei no show. Sim, ora bolas, eu chorei. Não porque estivesse ali partilhando da comoção da turba enlouquecida, mas porque estava ali nos braços da pessoa que eu mais amo no mundo (além da minha mãe, óbvio).

Enfim, o que eu ia dizer mesmo é que apesar de tudo, todo mundo continua sonhando em encontrar uma cara-metade, uma tampa pra panela,  whatever – insira aqui o clichê cafona de sua preferencia. Barbados da PUC, integrantes do PSTU, niteroienses, hipongos da zona sul, todo mundo continua querendo alguém com quem partilhar as misérias da existência.  Sei que já disse isso antes por aqui, mas continuo achando curioso que, às portas de um suposto apocalipse e vivendo a maior apoteose tecnológica dos últimos tempos, eu ainda conheça uma meia dúzia que venderia seus ipads, ipods, blackberrys, iphones, etc por uma noite que fosse nos braços de alguém que passasse essa sensação mágica que só o amor consegue dar: paz. Não importa quão tórrido seja um romance, ou como ele começou, se é amor, são duas pessoas que, apesar dos tropeços da vida lá fora, conseguem encontrar paz nos braços uma da outra. Não, não tem preço. E sim, falo por experiência própria. Os mal-humorados também amam, afinal.

Olhei em volta enquanto tocava “Último Romance” e tudo que eu vi foi um mar de casais abraçados enchendo a Fundição até o teto. Todos, acredito eu, usufruindo daquele momento único que só os braços do ser amado podem proporcionar. Ou, como diria o patrão, usufruindo daquele momento único que é o show do Los Hermanos.

Vou-me embora para Macondo.

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É provável que Cem anos de solidão tenha sido o primeiro grande livro da minha vida. Apesar de hoje, adulta, leitora madura, sair por aí dizendo que meu favorito do Gabo é Crônica de uma morte anunciada, foi Cem anos que fez meu coraçãozinho parar pela primeira vez.

Minha biblioteca pessoal tem, desde sempre, pelo menos dois ou três exemplares da obra. Explico porque. Não consigo admitir que qualquer um que se considere meu amigo possa não ter lido essa maravilha. Algumas das minhas piadinhas mais recorrentes, inclusive, são oriundas das páginas do melhor livro do Gabo. Minha obsessão pelo livro é tão grande que obriguei até minha mãe a lê-lo – olha que ela  gostou.

Enfim, vou tentar explicar o porquê disso. Sempre fui uma pessoa que tinha mais livros que amigos, mesmo quando não tinha dinheiro pra comprar livros e pegava tudo em bibliotecas. Acontece que, um belo dia, eu esgotei todas as possibilidades que seriam “adequadas” para minha “faixa etária” na biblioteca do colégio. Nesse ponto, é provável que as pessoas se perguntem se eu já era assim no colégio – sim, era, qual o problema? Sempre fui uma leitora precoce. Perguntei pra tia da biblioteca o que mais eu poderia ler. Sem pestanejar, ela me apontou uma coleção linda de livros de capa azul, todos novinhos, pois ninguém os lia e disse: “Pode ser que eu me engane, mas acho que você vai gostar de todos eles.” Ela estava certa. Se hoje estou no doutorado, a culpa com certeza foi da doce bibliotecária do Instituto Abel. Ela me apontou Cem anos de solidão e disse que era o melhor. Levei pra casa e voltei, três dias depois, com olheiras e talvez alguns quilos mais magra, mas, principalmente, algo havia mudado pra sempre na minha concepção de literatura.

Eu tinha 14 anos e, pela primeira vez, havia me deparado com uma obra de arte de verdade. (é, porque eu só comecei a frequentar museus e ler descontroladamente boa literatura com uns 17, 18 anos.) Reli o livro mais umas duas vezes naquele mesmo ano e mais tudo do Gabo que encontrei pela frente. Olhos de cão azul, Ninguém escreve ao coronel, O outono do patriarca, Cândida Erêndira, blá blá blá. Foi o primeiro escritor do meu panteão pessoal, o primeiro cara que eu considerei um gênio. E o melhor, na época, eu nem conseguia explicar porquê. Feito uma viciada, li um atrás do outro, varei madrugadas adentro e, por muitos vezes, me senti como uma verdadeira moradora de Macondo.

Acho, até hoje, que Cem anos de solidão é o livro que melhor resume o que faz um sujeito escrever a ponto de ganhar um Nobel. Anos depois, já na Faculdade de Letras da UFRJ (amor, puro amor!), tive uma aula genial sobre o livro e entendi o que faz dele a melhor maneira de contar a história do nosso continente americano. Entendi o que cada personagem significava e qual era o papel real de cada um deles. Mais ainda, acho que entendi o que era uma obra de arte, essa potência que transborda e que faz de uma única obra algo imortal.

Enfim, essa semana convenci o patrão aqui em casa a começar a lê-lo. Da mesma maneira que eu fiz, aos 14 anos, ele está carregando o livro pra cima e pra baixo enão consegue largá-lo, a não ser para dormir. Sem mais o que dizer, encerro o post com um trechinho que sei de cor desde que me entendo por gente:

“MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano
Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente quemuitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores,dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal,* que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se desencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. “As coisas têm vida própria”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a sua alma.” José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da
natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: “Para isso não serve.” “(trecho retirado da edição da Record, tradução Eliane Zagury) ps: prefiro a tradução do Eric Nepomunceno.

Primeiro post de 2012

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(Umberto Eco, um dos maiores da minha cosmogonia pessoal)

Sim, sou dessas.

O ano virou, minha vida também, logo…o post novo demorou a sair do forno. Por forno, entendam meu cérebro.

Depois de corrigir uma centena de trabalhos, chegou a hora de começar a escrever o meu próprio. E, claro, como não poderia ser diferente, passo a madrugada escrevendo duas páginas e, por fim, me rendo e decido postar no blog.

Poderia falar dos livros que li desde o último post (na verdade, isso já faz parte do segundo post de 2012), mas acho que quero falar de pessoas idiotas. Sim, porque acho que a essa altura todo mundo já sabe que a única coisa perfeita do mundo são os perfeitos idiotas. E ainda mais, eles sempre vencem por quantidade, sabe-deus-por-quê. Então vamos lá:

Primeira parte: mea culpa, mea maxima culpa. Eu, jovem niteroiense de nascimento e cristã de criação, confesso que perdi infames cinco minutos do meu dia lendo essa merda aqui. Uma merda, a internet está cheia delas, ok, abre o link quem estiver com vontade de bater palma pra maluco.

Acho que a imbecilidade do texto é tão grande que dispensa comentários, né? Porque, afinal de contas, se maioria fosse sinônimo de qualidade, estaríamos todos carregando pedras para o Führer e pedindo a Deus que matasse e ao Diabo que carregasse. Não, amiguinho, você entendeu tudo errado. Qualidade não é o mesmo que quantidade, quem vende livros não é escritor, quem faz música não é compositor e assim sucessivamente. Lá vou eu, mais uma vez, com minha alma de missionária (ou seria alma de professora, enfim…), tentar explicar o que é obra de arte, dessa vez numa versão mais (ainda) for dummies.

Aliás, nem sei se quero mesmo tentar explicar isso. Eu acho tão absurdo, que não sei nem por onde começar. Queria lembrar de cabeça de uma frase de algum livro do Faulkner, pra mostrar que a genialidade, infelizmente, não está aí para as massas desfrutarem livremente. Sim, me chamem de intelectual elitista, é previsível. Mas acho uma tremenda enganação querermos acreditar que nosso sistema escolar pode produzir leitores capacitados de James Joyce ou apreciadores de música erudita. Vivemos sob a égide do capitalismo, que implantou a culturas das massas e é isso aí. Michel Teló (agradeço a Deus por não ter ouvido a música, aqui só tem tocado jazz devido à temporada de monografias), BBB, programas de futilidades todos, são gostos implantados. Não acho que mereça entrar no mérito, como fez o pela-saco do Los Hermanos, se é bom, se é uma merda, ou qualquer outro juízo de valor. Cultura de massas é isso aí, galera, qualquer aluno de oitavo ano sabe disso.

Como eu sempre – sempre mesmo – fico falando de literatura, farei o de sempre. Já disse isso aqui e vou repetir. Paulo Coelho pode vender milhões de livros que ele nunca vai ganhar um Nobel. O que ele escreve é feito, pensado e arquitetado sob medida para você, sim você, que está perdendo seu tempo comigo, mas que desejava ouvir palavras reconfortantes em meio ao turbilhão da (pós)modernidade.

O que faz uma obra de arte –  na minha humilde opinião – é um poder de desconforto. Falando de Faulkner (ok, não sei por que, estou com ele na cabeça hoje), quando li Palmeiras Selvagens, fiquei extremamente desconfortável. Indescritível. Não dá pra explicar se é apenas a linguagem levada ao extremo (a tradução também era de uma maestria ímpar) ou se era a narrativa, hermética, recortada, fragmentada e depois reunida, o silêncio, não sei… Confesso que, nesses momentos, me sinto muito mais uma leitora apaixonada que uma crítica especializada.

 

Bem, resumindo, 2011 foi um bom ano pro Antimemorias. Espero fazer com que 2012 também seja.

PS: Sim, há! Fiquei um tempinho aqui procurando uma passagem de um dos meus livros favoritos do Umberto Eco (Ainda não li O cemitério de Praga, por favor, sem spoilers nos comentários) e encontrei. Em A memória vegetal, tem uma parte que se chama “a loucura dos especialistas” e me é particularmente cara por dois motivos. O primeiro, bastante óbvio, me sinto capaz de, quem sabe um dia, fazer piada com algum escritor por aí e ele ser o próximo James Joyce. Segundo porque essa passagem comprova que toda a idiotice que tem sido disseminada por aí é mais do que equivocada.

Bem, deliciem-se com o mestre italiano: “Em 1851 Moby Dick foi recusado na Inglaterra coma seguinte avaliação: Não achamos que possa funcionar no mercado de literatura para jovens. É longo, de estilo antiquado e cremos que não merece a reputação de que parece gozar”. (…) Quanto ao nosso século, eis alguns exemplos: James Joyce, Dedalus, 1901: No final do livro tudo se desintegra. Tanto a escrita quanto as ideias  explodem em fragmentos  meio úmidos, como polvorim molhado. (…)Faulkner, Santuário, 1931: Meus Deus, meu Deus, não podemos publicá-lo. Acabaremos todos na prisão”.

Sobre o dia D

Inspirada pela amiguinha (e blogueira) Gabriela Ventura, resolvi também escrever meia dúzia de linhas sobre o poeta mineiro mais amado do Brasil. Como todos sabem, poesia não é meu forte, confesso que sou uma leitora (ávida) de romances e contos. Além de Fernando Pessoa e Manuel Bandeira, poucos são os poetas que me fazem querer virar as páginas de um livro. Bem, claro, antes de mais nada, vou deixar claro também que esse não é um post pra falar mal do Drummond. Na verdade, queria mesmo era compartilhar um caso envolvendo um poema e uma aula.

Depois de quase um semestre inteiro estudando Drummond na faculdade, fiquei de saco cheio e dei meu livro de presente pra uma amiga, com todos os comentários e anotações na margem. Pensando nisso hoje, acho que não foi uma ideia muito feliz…fato é que esse ano, no começo desse segundo semestre, acabei fazendo as pazes com o poeta mineiro. Numa das primeiras aulas de uma matéria ministrada pela (querida) professora Martha Alkimin, me vi forçada a aceitar (e, claro, reverenciar) a genialidade indiscutível de Carlos Drummond. Lembro como se fosse hoje, a perplexidade da turma diante das teses de Baudrillard que iam sendo expostas, quando, sem qualquer aviso prévio, a professora sacou um poema de Drummond e leu, em voz alta, para a turma. O poema era Caso do vestido, que faço questão de incluir nesse post e que também fiz questão de levar para todos os meus alunos nesse semestre. Ao final da leitura, eu havia sido convertida. Se hoje, ainda que continue tendo a prosa como preferência, abro, confesso aqui timidamente, o  livro do  Drummond procurando nada mais que o prazer de degustar uma poesia ou outra…ou apenas reler uma maravilha como essa aqui:

Caso do Vestido

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.


Texto extraído do livro “Nova Reunião – 19 Livros de Poesia“, José Olympio Editora – 1985, pág. 157.

ps: MEU DEUS, MEU DEUS, POR QUE A OBRA DO DRUMMOND INSPIRA FILMES TÃO RUINS???