É provável que Cem anos de solidão tenha sido o primeiro grande livro da minha vida. Apesar de hoje, adulta, leitora madura, sair por aí dizendo que meu favorito do Gabo é Crônica de uma morte anunciada, foi Cem anos que fez meu coraçãozinho parar pela primeira vez.
Minha biblioteca pessoal tem, desde sempre, pelo menos dois ou três exemplares da obra. Explico porque. Não consigo admitir que qualquer um que se considere meu amigo possa não ter lido essa maravilha. Algumas das minhas piadinhas mais recorrentes, inclusive, são oriundas das páginas do melhor livro do Gabo. Minha obsessão pelo livro é tão grande que obriguei até minha mãe a lê-lo – olha que ela gostou.
Enfim, vou tentar explicar o porquê disso. Sempre fui uma pessoa que tinha mais livros que amigos, mesmo quando não tinha dinheiro pra comprar livros e pegava tudo em bibliotecas. Acontece que, um belo dia, eu esgotei todas as possibilidades que seriam “adequadas” para minha “faixa etária” na biblioteca do colégio. Nesse ponto, é provável que as pessoas se perguntem se eu já era assim no colégio – sim, era, qual o problema? Sempre fui uma leitora precoce. Perguntei pra tia da biblioteca o que mais eu poderia ler. Sem pestanejar, ela me apontou uma coleção linda de livros de capa azul, todos novinhos, pois ninguém os lia e disse: “Pode ser que eu me engane, mas acho que você vai gostar de todos eles.” Ela estava certa. Se hoje estou no doutorado, a culpa com certeza foi da doce bibliotecária do Instituto Abel. Ela me apontou Cem anos de solidão e disse que era o melhor. Levei pra casa e voltei, três dias depois, com olheiras e talvez alguns quilos mais magra, mas, principalmente, algo havia mudado pra sempre na minha concepção de literatura.
Eu tinha 14 anos e, pela primeira vez, havia me deparado com uma obra de arte de verdade. (é, porque eu só comecei a frequentar museus e ler descontroladamente boa literatura com uns 17, 18 anos.) Reli o livro mais umas duas vezes naquele mesmo ano e mais tudo do Gabo que encontrei pela frente. Olhos de cão azul, Ninguém escreve ao coronel, O outono do patriarca, Cândida Erêndira, blá blá blá. Foi o primeiro escritor do meu panteão pessoal, o primeiro cara que eu considerei um gênio. E o melhor, na época, eu nem conseguia explicar porquê. Feito uma viciada, li um atrás do outro, varei madrugadas adentro e, por muitos vezes, me senti como uma verdadeira moradora de Macondo.
Acho, até hoje, que Cem anos de solidão é o livro que melhor resume o que faz um sujeito escrever a ponto de ganhar um Nobel. Anos depois, já na Faculdade de Letras da UFRJ (amor, puro amor!), tive uma aula genial sobre o livro e entendi o que faz dele a melhor maneira de contar a história do nosso continente americano. Entendi o que cada personagem significava e qual era o papel real de cada um deles. Mais ainda, acho que entendi o que era uma obra de arte, essa potência que transborda e que faz de uma única obra algo imortal.
Enfim, essa semana convenci o patrão aqui em casa a começar a lê-lo. Da mesma maneira que eu fiz, aos 14 anos, ele está carregando o livro pra cima e pra baixo enão consegue largá-lo, a não ser para dormir. Sem mais o que dizer, encerro o post com um trechinho que sei de cor desde que me entendo por gente:
“MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano
Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente quemuitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores,dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal,* que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se desencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. “As coisas têm vida própria”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a sua alma.” José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da
natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: “Para isso não serve.” “(trecho retirado da edição da Record, tradução Eliane Zagury) ps: prefiro a tradução do Eric Nepomunceno.

Não que eu não tenha gostado do ‘Amor nos Tempos de Cólera’, mas é bom você me arrumar uma cópia de ‘Crônica de uma morte anunciada’ antes que a gente pare de se falar.
Afinal, sou a amiga sobrevivente dos recreios por entre as estantes da biblioteca!
Tinha mais livros que amigos e hoje faz amigos através dos livros. E que perceba que a Biblioteca Abel tem apenas um B a menos que a de Babel.
Beijos.
Vinícius Antunes