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Após a enxurrada de comentários motivados – não unicamente, claro – pelo último post, venho por meio deste responder algumas pendências e tentar, por fim, me fazer entender. Claro, porque meus planos para o blog incluíam uma resenha de Carvão Animal, e não uma reiteração de coisas que eu acreditava já estarem mais do que claras.

Bem, vamos por partes: o que acabou se tornando o tornando o pivô da discussão foi o livro (ainda não publicado) de autoria de Thiago Luz. A obra em questão, denominada “Bravo! Quando os homens se tornam heróis”, serviu como mote para uma reflexão sobre os rumos da ficção contemporânea brasileira. Minhas opiniões não foram bem recebidas pelo autor do livro, nem por um homônimo de sobrenome Póvoa, que também surgiu em defesa de uma “suposta” literatura pragmática. Sim, claro, após ter respondido ambos, qual não foi minha surpresa ao ver que o autor em questão destilou, no último de seus comentários, um rancor ácido e despropositado contra a minha pessoa. Em momento algum havia eu sido descortês ou mal-educada, apenas, como enfatizei desde o princípio, não gostei em absoluto do livro. Afirmo até que, na atual conjuntura e baseado na versão que li o que se encontra ali está mais próximo de um roteiro do que de um livro.

(Enfim, faço aqui também uma ressalva. Não tenho nada pessoal contra você, Thiago, e sinceramente esperava que uma pessoa em vias de publicar um livro fosse ter uma recepção completamente diferente da opinião sincera de uma especialista. Devo lembrá-lo que publicar um livro, lançar um disco ou mesmo estrelar uma peça teatral é exibir sua produção pessoal para a avaliação pública. Logo, o que eu fiz aqui não difere muito do que o aguarda na materialidade da obra publicada.)

Acredito que, também, parte da revolta se deve ao fato de ter afirmado que havia achado a obra um tanto quanto conservadora. Sim, porque o que faz um livro ser politicamente incorreto não é violência ou vocabulário de baixo calão, mas conteúdo. Devo, mais uma vez, lembrar que Nelson Rodrigues, até hoje conhecido pela imoralidade de suas narrativas, nunca empregou um único palavrão. O que vi foi uma manifestação daquilo que Marcelo Rubens Paiva expressou magistralmente em seu blog do Estadão: “A onda agora é ser bem REAÇA”. Aliás, vou até me furtar a desenvolver qualquer tipo de comentário, mas digo que endosso cada palavra de Rubens Paiva, que acredito que a maioria daqueles que defendem a liberdade individual também são os mesmo que apoiaram (e apoiam) as repressões às manifestações populares.

Chego, enfim, ao ponto nevrálgico dessa reiteração: Qual é a tarefa da crítica? Ou como devem preferir os revoltados, ou reaças de plantão, crítica pra quê?

Claro, se cabe ao tempo separar o que presta e o que não presta, o que fazem os críticos, esses recalcados sem coração que não tem coragem suficiente de escreverem seus próprios livros, comporem suas próprias músicas ou dirigirem seus próprios filmes?

Respondo, humildemente, em nome da classe: Fazemos o trabalho sujo. Parafraseando uma das minhas musas inspiradoras, Flora Süssekind, digo que é a crítica que alimenta a discussão, que é capaz de mostrar o que há nas entrelinhas de uma obra. Sim, quando de fato há algo nas entrelinhas. E quando nos levantamos e dizemos que algo é raso, ou que não suporta o menor peteleco teórico, somos monstros. Não nego, confesso que uma parte de mim até gosta da demonização da figura do crítico. Só preciso deixar uma coisa bem clara, de uma vez por todas: a tarefa da crítica é, sem dúvida, uma escolha. Os maiores teóricos da literatura brasileira não são escritores frustrados, da mesma maneira como não foram Roland Barthes, Paul Válery, Theodor W. Adorno, apenas para citar alguns dos que me acompanham do café-da-manhã ao jantar.  Somos – me incluo, mais uma vez, humildemente ao lado de tais antecessores – leitores. Não meros leitores de folhetim, consumidores de best-sellers, auto-ajuda, Harry Potter, Crepúsculo ou qualquer coisa que possa andar na moda.

Mais uma vez, recorro à Flora Süssekind para corroborar meu ponto de vista:

Fabricam-se nomes e títulos vendáveis, vende-se, sobretudo o nome das editoras, e sua capacidade de descobrir “novos talentos” semestralmente, ao sabor das feiras literárias. E, nesse sentido, formas dissentâneas de percepção, como a crítica, se mostram particularmente incômodas. Formas personalistas e estabilizadoras, ao contrário, se esvaziadas, parecem continuar benvindas. Se adotado o perfil do colunista que “sabe ficar no seu lugar”, que funciona, com voz opiniática, e sem maiores tensões, como moldura quase invisível, inconsequente, para o que o mercado editorial ou o próprio veículo quiser referendar. Se desse lugar sem qualquer ressonância não houver condições reais de intervenção, formulação de questões relevantes e expansão do mínimo espaço público talvez ainda disponível para um exercício crítico que não se confunda inteiramente com busca de prestígio ou com um guia de consumo. Talvez seja necessário, na discussão de um espaço ainda crítico para a crítica, matar mais uma vez Wilson Martins. Já que sua transformação em imago exemplar parece expor inequívoca vontade de retorno a algo próximo à tradição das Belas Letras, a um regime estável e hierarquizado de vozes e gêneros, a regras fixas de apreciação e prática textual, a um apagamento de novos espaços de legibilidade, espaços ainda não demarcados ou nomeados, e sugeridos por formas de compreensão expansivas, e não exclusivas, do campo da literatura. Um desejo de reierarquização e pureza que não parece sem sintonia com o temor de um universo sóciopolítico menos hierarquizado, com a expansão meio informe de uma classe média cujo imaginário não parece ultrapassar uma coleção inesgotável de bens de consumo. E com uma extraordinária expansão das práticas digitais de escrita, acompanhada, paradoxalmente, no entanto, de uma quase invisibilidade coletiva dessas manifestações, de um encolhimento quase ao absurdo da esfera pública.

Idealismo acreditar que meu pobre texto, alvo de tantos comentários que parecem ignorar solenemente seu conteúdo poderia encontrar abrigo na retórica sofisticada daquela que é, na minha opinião, vejam bem, na minha opinião, uma das maiores intelectuais brasileiras, capaz de analisar não apenas seu local de enunciação, mas a reverberação de suas declarações e a cena literária tupiniquim como um todo. Nesse caso, sem problemas, explico objetivamente o que está contido no fragmento supracitado: a inexpressividade da literatura brasileira parece estar também intimamente relacionada à tarefa incômoda do crítico literário. Por isso, de uns tempos pra cá, pudemos observar uma espécie de retorno à crítica elogiosa, ao posicionamento que não causa desconforto, ao que ela denomina de formas estabilizadoras. A crítica não deve ter como função a estabilidade, e sim a instabilidade, a intervenção, a transgressão. Sim, pois seu dever, como ofício advindo da literatura, é dialogar com a expressão artística mais desafiadora de todas. Mais uma vez, a hipérbole anterior é por minha conta e risco, por mais que veja outras formas de arte como a pintura e o cinema como também sendo capazes de tentar traduzir o camoniano desconcerto do mundo, ainda acredito que usar algo tão desgastado como a linguagem para fugir do comodismo da sociedade de consumo é um desafio ímpar.

Se até o presente momento ainda não me fiz clara o suficiente, escolho recorrer a mais um dos pilares de nossa teoria literária, Antonio Candido, na citação de Fernandes Pinheiro, que abre Introdução à literatura brasileira:

os homens têm quase as mesmas ideias acerca dos objetos que estão ao alcance de todos, sobre que versam habitualmente os discursos e escritos, constituindo a diferença na expressão, ou estilo, que apropria as coisas mais comuns, fortifica as mais fracas e dá grandeza às mais simples. Nem se pense que haja sempre novidades para exprimir; é uma ilusão dos parvos ou ignorantes acreditarem que possuem tesouros de originalidade, e que aquilo que pensam, ou dizem, nunca foi antes pensado, ou dito por ninguém.

O rascunho que havia começado para ser o próximo post também explorava essa ideia, mas pelo viés do mestre argentino Jorge Luis Borges, quando ele afirma que a literatura do mundo pode ser resumida a três ou quatro obsessões. Não, não temos nada de original a compartilhar, não podemos ter essa ilusão. A única coisa que pode salvar um livro da superficialidade é, ironicamente, a crítica ou, ainda, a autocrítica.

Para finalizar, irei me dirigir diretamente aos dois Thiagos que tanto ficaram desconfortáveis com minhas afirmações. Não estou escrevendo isso pra convencer ninguém, cada um que sabe de si, para usar uma imagem oriunda da sabedoria popular. Falo, com bastante orgulho, do meu local de enunciação, pois trabalhei bastante para chegar até aqui. Por trabalhei, entendam: li bastante. Li, sem sombra de dúvida, muito mais livros do que ambos juntos. E assumi o ofício de crítica não como uma escritora frustrada, mas como uma leitora apaixonada. Não tenho vergonha de ser taxada de intelectual, pelo contrário. Acho que num país de degredados que sempre fomos, intelectuais são de extrema necessidade. Somos nós que pensamos a sociedade, que escrevemos e que refletimos sobre o que acontece. E sim, no passado, também fomos nós que pegamos em armas e lutamos pela liberdade que hoje temos.

Ah, claro, quanto a “ser uma professora e querer ensinar sobre rock and roll”, fiquem sabendo que sei muito sobre rock, sobre música, que já fiz tudo que todo mundo fez: estudei, fiz aulas, tive bandas, mas abri mão porque não era isso que me fazia feliz. Em momento nenhum resumi o gênero que marcou o século XX ao trinômio “sexo, drogas e rock n’ roll”. Afirmei, e reafirmo, que rock é transgressão, insubmissão e não aceitação dos padrões impostos, coisas que, como também havia afirmado antes, não se encontram nas páginas do seu livro, Thiago. Jornada de superação pessoal, monogamia extremada e valorização da moral não estão em consonância com o que sempre foi pregado pelo rock. Você pode citar quem quiser, até mesmo o ecochato de plantão, Bono Vox, mas isso não muda em nada o fato de que ele também está matando o rock, aliás, desde que o U2 lançou aquele disco patético na década de 90, o Pop. O fato de que hoje em dia exista essa predominância do politicamente correto não anula o caráter transgressor do rock. Aliás, acredito que o próprio Renato Russo concordaria comigo, grande fã de Ramones que era. (Se você quiser entender um pouco mais do que estou falando, leia Mate-me por favor, uma história sem censura do punk.)

Hora de acender uma velinha pra Saint Roland Barthes e encerrar o domingo, né?