Vou-me embora para Macondo.

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É provável que Cem anos de solidão tenha sido o primeiro grande livro da minha vida. Apesar de hoje, adulta, leitora madura, sair por aí dizendo que meu favorito do Gabo é Crônica de uma morte anunciada, foi Cem anos que fez meu coraçãozinho parar pela primeira vez.

Minha biblioteca pessoal tem, desde sempre, pelo menos dois ou três exemplares da obra. Explico porque. Não consigo admitir que qualquer um que se considere meu amigo possa não ter lido essa maravilha. Algumas das minhas piadinhas mais recorrentes, inclusive, são oriundas das páginas do melhor livro do Gabo. Minha obsessão pelo livro é tão grande que obriguei até minha mãe a lê-lo – olha que ela  gostou.

Enfim, vou tentar explicar o porquê disso. Sempre fui uma pessoa que tinha mais livros que amigos, mesmo quando não tinha dinheiro pra comprar livros e pegava tudo em bibliotecas. Acontece que, um belo dia, eu esgotei todas as possibilidades que seriam “adequadas” para minha “faixa etária” na biblioteca do colégio. Nesse ponto, é provável que as pessoas se perguntem se eu já era assim no colégio – sim, era, qual o problema? Sempre fui uma leitora precoce. Perguntei pra tia da biblioteca o que mais eu poderia ler. Sem pestanejar, ela me apontou uma coleção linda de livros de capa azul, todos novinhos, pois ninguém os lia e disse: “Pode ser que eu me engane, mas acho que você vai gostar de todos eles.” Ela estava certa. Se hoje estou no doutorado, a culpa com certeza foi da doce bibliotecária do Instituto Abel. Ela me apontou Cem anos de solidão e disse que era o melhor. Levei pra casa e voltei, três dias depois, com olheiras e talvez alguns quilos mais magra, mas, principalmente, algo havia mudado pra sempre na minha concepção de literatura.

Eu tinha 14 anos e, pela primeira vez, havia me deparado com uma obra de arte de verdade. (é, porque eu só comecei a frequentar museus e ler descontroladamente boa literatura com uns 17, 18 anos.) Reli o livro mais umas duas vezes naquele mesmo ano e mais tudo do Gabo que encontrei pela frente. Olhos de cão azul, Ninguém escreve ao coronel, O outono do patriarca, Cândida Erêndira, blá blá blá. Foi o primeiro escritor do meu panteão pessoal, o primeiro cara que eu considerei um gênio. E o melhor, na época, eu nem conseguia explicar porquê. Feito uma viciada, li um atrás do outro, varei madrugadas adentro e, por muitos vezes, me senti como uma verdadeira moradora de Macondo.

Acho, até hoje, que Cem anos de solidão é o livro que melhor resume o que faz um sujeito escrever a ponto de ganhar um Nobel. Anos depois, já na Faculdade de Letras da UFRJ (amor, puro amor!), tive uma aula genial sobre o livro e entendi o que faz dele a melhor maneira de contar a história do nosso continente americano. Entendi o que cada personagem significava e qual era o papel real de cada um deles. Mais ainda, acho que entendi o que era uma obra de arte, essa potência que transborda e que faz de uma única obra algo imortal.

Enfim, essa semana convenci o patrão aqui em casa a começar a lê-lo. Da mesma maneira que eu fiz, aos 14 anos, ele está carregando o livro pra cima e pra baixo enão consegue largá-lo, a não ser para dormir. Sem mais o que dizer, encerro o post com um trechinho que sei de cor desde que me entendo por gente:

“MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano
Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente quemuitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores,dava a conhecer os novos inventos. Primeiro trouxeram o imã. Um cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal,* que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração pública daquilo que ele mesmo chamava de a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia. Foi de casa em casa arrastando dois lingotes metálicos, e todo o mundo se espantou ao ver que os caldeirões, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam do lugar, e as madeiras estalavam com o desespero dos pregos e dos parafusos tentando se desencravar, e até os objetos perdidos há muito tempo apareciam onde mais tinham sido procurados, e se arrastavam em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. “As coisas têm vida própria”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a sua alma.” José Arcadio Buendía, cuja desatada imaginação ia sempre mais longe que o engenho da
natureza, e até mesmo além do milagre e da magia, pensou que era possível se servir daquela invenção inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado, preveniu-o: “Para isso não serve.” “(trecho retirado da edição da Record, tradução Eliane Zagury) ps: prefiro a tradução do Eric Nepomunceno.

Primeiro post de 2012

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(Umberto Eco, um dos maiores da minha cosmogonia pessoal)

Sim, sou dessas.

O ano virou, minha vida também, logo…o post novo demorou a sair do forno. Por forno, entendam meu cérebro.

Depois de corrigir uma centena de trabalhos, chegou a hora de começar a escrever o meu próprio. E, claro, como não poderia ser diferente, passo a madrugada escrevendo duas páginas e, por fim, me rendo e decido postar no blog.

Poderia falar dos livros que li desde o último post (na verdade, isso já faz parte do segundo post de 2012), mas acho que quero falar de pessoas idiotas. Sim, porque acho que a essa altura todo mundo já sabe que a única coisa perfeita do mundo são os perfeitos idiotas. E ainda mais, eles sempre vencem por quantidade, sabe-deus-por-quê. Então vamos lá:

Primeira parte: mea culpa, mea maxima culpa. Eu, jovem niteroiense de nascimento e cristã de criação, confesso que perdi infames cinco minutos do meu dia lendo essa merda aqui. Uma merda, a internet está cheia delas, ok, abre o link quem estiver com vontade de bater palma pra maluco.

Acho que a imbecilidade do texto é tão grande que dispensa comentários, né? Porque, afinal de contas, se maioria fosse sinônimo de qualidade, estaríamos todos carregando pedras para o Führer e pedindo a Deus que matasse e ao Diabo que carregasse. Não, amiguinho, você entendeu tudo errado. Qualidade não é o mesmo que quantidade, quem vende livros não é escritor, quem faz música não é compositor e assim sucessivamente. Lá vou eu, mais uma vez, com minha alma de missionária (ou seria alma de professora, enfim…), tentar explicar o que é obra de arte, dessa vez numa versão mais (ainda) for dummies.

Aliás, nem sei se quero mesmo tentar explicar isso. Eu acho tão absurdo, que não sei nem por onde começar. Queria lembrar de cabeça de uma frase de algum livro do Faulkner, pra mostrar que a genialidade, infelizmente, não está aí para as massas desfrutarem livremente. Sim, me chamem de intelectual elitista, é previsível. Mas acho uma tremenda enganação querermos acreditar que nosso sistema escolar pode produzir leitores capacitados de James Joyce ou apreciadores de música erudita. Vivemos sob a égide do capitalismo, que implantou a culturas das massas e é isso aí. Michel Teló (agradeço a Deus por não ter ouvido a música, aqui só tem tocado jazz devido à temporada de monografias), BBB, programas de futilidades todos, são gostos implantados. Não acho que mereça entrar no mérito, como fez o pela-saco do Los Hermanos, se é bom, se é uma merda, ou qualquer outro juízo de valor. Cultura de massas é isso aí, galera, qualquer aluno de oitavo ano sabe disso.

Como eu sempre – sempre mesmo – fico falando de literatura, farei o de sempre. Já disse isso aqui e vou repetir. Paulo Coelho pode vender milhões de livros que ele nunca vai ganhar um Nobel. O que ele escreve é feito, pensado e arquitetado sob medida para você, sim você, que está perdendo seu tempo comigo, mas que desejava ouvir palavras reconfortantes em meio ao turbilhão da (pós)modernidade.

O que faz uma obra de arte -  na minha humilde opinião – é um poder de desconforto. Falando de Faulkner (ok, não sei por que, estou com ele na cabeça hoje), quando li Palmeiras Selvagens, fiquei extremamente desconfortável. Indescritível. Não dá pra explicar se é apenas a linguagem levada ao extremo (a tradução também era de uma maestria ímpar) ou se era a narrativa, hermética, recortada, fragmentada e depois reunida, o silêncio, não sei… Confesso que, nesses momentos, me sinto muito mais uma leitora apaixonada que uma crítica especializada.

 

Bem, resumindo, 2011 foi um bom ano pro Antimemorias. Espero fazer com que 2012 também seja.

PS: Sim, há! Fiquei um tempinho aqui procurando uma passagem de um dos meus livros favoritos do Umberto Eco (Ainda não li O cemitério de Praga, por favor, sem spoilers nos comentários) e encontrei. Em A memória vegetal, tem uma parte que se chama “a loucura dos especialistas” e me é particularmente cara por dois motivos. O primeiro, bastante óbvio, me sinto capaz de, quem sabe um dia, fazer piada com algum escritor por aí e ele ser o próximo James Joyce. Segundo porque essa passagem comprova que toda a idiotice que tem sido disseminada por aí é mais do que equivocada.

Bem, deliciem-se com o mestre italiano: “Em 1851 Moby Dick foi recusado na Inglaterra coma seguinte avaliação: Não achamos que possa funcionar no mercado de literatura para jovens. É longo, de estilo antiquado e cremos que não merece a reputação de que parece gozar”. (…) Quanto ao nosso século, eis alguns exemplos: James Joyce, Dedalus, 1901: No final do livro tudo se desintegra. Tanto a escrita quanto as ideias  explodem em fragmentos  meio úmidos, como polvorim molhado. (…)Faulkner, Santuário, 1931: Meus Deus, meu Deus, não podemos publicá-lo. Acabaremos todos na prisão”.

Sobre o dia D

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Inspirada pela amiguinha (e blogueira) Gabriela Ventura, resolvi também escrever meia dúzia de linhas sobre o poeta mineiro mais amado do Brasil. Como todos sabem, poesia não é meu forte, confesso que sou uma leitora (ávida) de romances e contos. Além de Fernando Pessoa e Manuel Bandeira, poucos são os poetas que me fazem querer virar as páginas de um livro. Bem, claro, antes de mais nada, vou deixar claro também que esse não é um post pra falar mal do Drummond. Na verdade, queria mesmo era compartilhar um caso envolvendo um poema e uma aula.

Depois de quase um semestre inteiro estudando Drummond na faculdade, fiquei de saco cheio e dei meu livro de presente pra uma amiga, com todos os comentários e anotações na margem. Pensando nisso hoje, acho que não foi uma ideia muito feliz…fato é que esse ano, no começo desse segundo semestre, acabei fazendo as pazes com o poeta mineiro. Numa das primeiras aulas de uma matéria ministrada pela (querida) professora Martha Alkimin, me vi forçada a aceitar (e, claro, reverenciar) a genialidade indiscutível de Carlos Drummond. Lembro como se fosse hoje, a perplexidade da turma diante das teses de Baudrillard que iam sendo expostas, quando, sem qualquer aviso prévio, a professora sacou um poema de Drummond e leu, em voz alta, para a turma. O poema era Caso do vestido, que faço questão de incluir nesse post e que também fiz questão de levar para todos os meus alunos nesse semestre. Ao final da leitura, eu havia sido convertida. Se hoje, ainda que continue tendo a prosa como preferência, abro, confesso aqui timidamente, o  livro do  Drummond procurando nada mais que o prazer de degustar uma poesia ou outra…ou apenas reler uma maravilha como essa aqui:

Caso do Vestido

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.


Texto extraído do livro “Nova Reunião – 19 Livros de Poesia“, José Olympio Editora – 1985, pág. 157.

ps: MEU DEUS, MEU DEUS, POR QUE A OBRA DO DRUMMOND INSPIRA FILMES TÃO RUINS???

Mais uma polêmica.

Enquanto o patrão e eu andamos tomando uma canseira do famigerado programinha que faz sites no Mac (sim, usamos Apple e estamos tristes com a perda do mestre), vou aproveitar a brecha pra contar por aqui mesmo o último climão do twitter. Envolvendo a que vos fala, obviamente.

Como qualquer ser humano entediado e viciado em internet, aproveito minha conta do twitter para diversão pessoal e bullying ocasional (quem nunca, né?). Bem, na semana passado, ao ter ouvido a última pérola da minha musa inspiradora, Flora Süssekind, aproveitei a conta do twitter para louvar minha musa e insultar o pela-saco-mór da atualidade, Paulo Coelho. Para aqueles que não sabem, o lance foi o seguinte: Europalia, um festival belga de arte e cultura, convocou o Brasil para enviar o que considerávamos como bons representantes da cultura tupiniquim. Até aí, ok. O climão ocorreu quando Flora Süssekind, curadora da parte de literatura do evento, se recusou (lindamente, na minha opinião) a ceder aos desejos dos belgas de lotar um auditório para uma palestra do auto-professado “mago” Paulo Coelho. Flora havia planejado algo sobre o eterno Machado de Assis, Sérgio Buarque de Hollanda e alguns dos nossos maiores e mais importantes escritores e pensadores. Os belgas bateram o pé. E ela também. Mandou que ficassem com o auditório, mas que ela não ia organizar palestra nenhuma pra mago nenhum (acho que ela foi mais polida que isso, apesar de sua fama de garota-enxaqueca do cenário das Letras). Eu aplaudi de pé, e quem foi pra Bélgica foram, sim, alguns dos nossos melhores: Bernardo Carvalho (vencedor do Portugal Telecom há alguns anos, com o incrivelmente maravilhoso Nove Noites), Milton Hatoum, Daniel Galera, entre outros. (Quem quiser ver o pessoal que está divulgando – bem-  nossa cultura, clique aqui.)

Como boa defensora das Letras que sou – apesar de muita gente achar que não – aproveitei pra twittar o seguinte, direcionado ao nada ilustre Paulo Coelho: “O que você escreve não é literatura. Uma pena que você seja brasileiro”. Sou encrenqueira? Talvez. Mas não consigo esconder minha revolta, minha indignação, ao saber que esse sujeito anda por aí se achando a última transgressão da pós-modernidade, publicando livros com o mesmo nome de livros de JORGE LUIS BORGES. Sem contar que, sinceramente, aquilo não é literatura, é auto-ajuda no máximo, um poético facilitado bem fajuto que ganhou espaço devido à crise de consciência globalizada nesse início de século conturbado.

E qual não foi minha surpresa ao ver que o estagiário que controla a conta do twitter do “mago” não só havia retuitado minha frase como havia respondido e me chamado de “troll”. Passei mal de rir, melhor ainda foram os zilhões de insultos que recebi, incluindo gente dizendo “que ele estava quase ganhando o Nobel e quem era eu pra falar isso”. Aos fiéis seguidores do aproveitador, só digo o seguinte: nem que rolasse um baile funk regado a Mister Catra e o melhor da quatro por quatro na Academia Sueca, Paulo Coelho ganharia o Nobel. As pessoas não sabem mais diferenciar o que é best-seller do que é literatura de verdade. Isso me irrita. Muito.

Para não dizerem que não expliquei, literatura é obra de arte, resiste através dos séculos, gera uma infinidade de interpretações. Literatura é Ulysses, Grande Sertão: Veredas. Aquilo que ele escreve só serve pra dizer o que todo mundo quer ouvir, o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.

Agora, o desfecho ainda mais revoltante da novelinha em 140 caracteres: hoje à tarde, o mesmo descontrolado estagiário (porque ninguém vai me convencer que é o multimilionário parceiro do Raul Seixas) tuitou a seguinte pérola: “Bélgica: 30 milhões jogados fora”.

OI??? DÁ PRA REPETIR? QUER DIZER QUE SÓ PORQUE O PC NÃO FOI, TODOS OS ARTISTAS BRASILEIROS QUE FORAM PRA LÁ REPRESENTANDO NOSSA CULTURA NÃO PRESTAM?

isso foi muito longe, tão longe que minha indignação não cabia mais nos tais 140 caracteres. Vim pra cá porque precisava externar. Não posso acreditar em tamanha pretensão, em tamanho egocentrismo.

(POR FAVOR, ESTAGIÁRIO QUE ADMINISTRA O TWITTER DO PAULO COELHO, DOBRE SUA LÍNGUA AO SEQUER SONHAR OFENDER BERNARDO CARVALHO, UM DOS MELHORES ESCRITORES BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS!)

Isso porque eu não vou enumerar aqui, um por um, todos que foram pra Bélgica, mas afirmo que todos, sem dúvida, estão representando muitíssimo bem nosso país. E, claro, nossos 30 milhões foram sim muito bem empregados, pois gerenciados por gente competente que conhece muito de literatura e não cede a pressões de mercado.

Camões, Baudelaire e a perda da aura: a figura do artista no Brasil contemporâneo

(ah, claro, e a resenha de Carvão Animal, da Ana Paula Maia)

(O povo clama por mais uma polêmica, e quem sou eu para negar? Após passar o feriado e mais um dia de cama, me comunicando através de gemidos e resmungos, sigo sem febre e encontro forças para escrever mais um textinho…)

Após tanto falatório gerado por uma obra ainda no prelo (comentários e dois posts) acho que a única citação possível vem do velho Camões, no canto X dos Lusíadas:

No mas, Musa, no mas, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Da austera, apagada e vil tristeza.

(Ok, piadas à parte. Aliás, piadas internas à parte)

Motivada por alguns comentários transtornados (e equivocados) que parecem refletir uma espécie de consenso, venho por meio de outro post questionar o conceito que temos de artista na sociedade tupiniquim de hoje.

Para começar, vou colocar a culpa na cultura do futebol. Não porque o esporte me cause qualquer tipo de ojeriza, mas porque o padrão que parece se reproduzir em outros campos tem sua origem na crença popular do talento nato “para jogar bola”. Até acredito que podemos ter uma predisposição pessoal, ou alguma espécie de facilidade para algumas atividades, como cantar, tocar um instrumento, praticar esportes ou até mesmo escrever; no entanto, não creio que isso possa ser atribuído unicamente ao talento. Há muito se sabe que tudo é fruto de prática e estudo, não apenas os esportes, a música ou a escrita. Aliás, acredito que essa diferença de concepção também sirva para explicar o abismo que existe entre o futebol da nossa terrinha e o que é posto em prática pelos times europeus. Jogamos melhor? Talvez jogássemos, se treinássemos mais, e acho que as últimas eliminações do Brasil nas Copas e demais competições apenas corroboram isso. Talento existe, não nego, mas não é nada sem treino e disciplina.

Acho que a reprodução desse ponto de vista também se dá em outros campos. Na literatura, na música, no teatro, aliás, nas artes cênicas em geral. Explico: quem já teve a oportunidade de assistir àquele programa “Inside Actor’s Studio”, vai saber do que estou falando. Quando atores gringos como Jennifer Connelly e Matt Damon, ou mesmo diretores como Woody Allen, abrem a boca o que ouvimos são referências a livros, estudos em Yale, Harvard, Stanford, oficinas de artes cênicas aliadas à disciplina e muitos ensaios. (Talvez nem seja o caso específico do Woody Allen, mas sempre que escuto suas entrevistas me chama a atenção o nível de leitura mantido pelo diretor, que não fica atrás dos maiores leitores que conheço.)

Quando vemos entrevistas de atores brasileiros (salvo aquelas exceções, como Paulo José, Fernanda Montenegro e mais outros das antigas, que tinham essa mesma concepção), há muito pouco ou quase nada disso. Há, sim, uma valorização exacerbada do talento, que parece querer justificar o autodidatismo, como se, ainda nos dias de hoje, ser ator fosse uma espécie de ofício escolhido pelos deuses. Ou deveria dizer musas?

Enfim, o mesmo se dá também no campo musical, onde se reproduzem bandas cada vez mais rasas, com músicos cada vez mais mal-formados. O tipo de gente que, como diriam meus (inúmeros) amigos da Faculdade de música, chega no dia do teste de habilidade específica com uma havaiana no pé, um violão sem capa, dizendo solenemente para uma banca de professores que vai tocar “Legião Urbana”. Odeio dar notícias ruins a pessoas legais, sinto informar, mas ter uma banda não é o mesmo que ser músico.

Creio que a essa altura algumas pessoas devem estar se perguntando o porquê desse post. Bem, meu objetivo não é fazer com que mais algumas pessoas se sintam ofendidas, contrário ao que possa parecer. Tenho sim, conforme afirmei, o desejo de compreender como é que as pessoas lidam com essa imagem do artista hoje.

Após escutar diferentes comentários, cheguei à conclusão que a famigerada “perda da aura”, de Charles Baudelaire ainda não cruzou o Atlântico. Claro, explico. Mas antes, cito o poeta francês mais atual do século XIX:

Você por aqui, meu caro? Você, num lugar suspeito! Você, o bebedor de quintessências! Você, o comedor de ambrosia? Em verdade, tenho de surpreender-me!

– Meu caro, você conhece meu pavor pelos cavalos e pelos carros. Ainda há pouco, enquanto eu atravessava a avenida, com grande pressa, e saltitava na lama por entre este caos movediço em que a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a lama da calçada. Não tive coragem de juntá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que deixar que me rompessem os ossos. E depois, pensei, há males que vêm para bem. Posso agora passear incógnito, praticar ações vis e me entregar à devassidão, como os simples mortais. E eis-me aqui, igualzinho a você, como vê!

– Você deveria ao menos mandar anunciar esta auréola, ou mandar reavê-la pelo comissário.

– Ora essa, não! Me sinto bem aqui. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me entedia. E também, penso com alegria que algum poeta ruim há de juntá-la e vesti-la impudentemente. Fazer alguém feliz, que prazer! E sobretudo um feliz que vai me fazer rir! Pense em X ou em Z, puxa! Que divertido vai ser!

O poema em prosa supracitado se tornou uma referência obrigatória sobre a postura do poeta moderno. A aura, ou auréola, que diferenciava o poeta das pessoas comuns caiu na lama e lá ficou. Isso quer dizer que a idealização que envolvia o ofício da escrita (em especial a poesia) não existe mais. O poeta não é alguém que foi escolhido pelas musas para receber inspiração, mas uma pessoa como nós.

Enfim, também não vou me estender num debate que pertence a Walter Benjamin, mas só quero deixar claro o seguinte: não existe propósito para revestirmos de verniz divino pessoas que, apenas por terem a coragem de vir a público, não parecem valorizar em nada seus respectivos campos. Não adianta querer ser ator, se tudo que você assiste é novela e “malhação”, não adianta querer ser músico e só ouvir “restart” e “fresno”.

O caso da música, em especial, rende um debate interessante. Qualquer imbecil é capaz de cantarolar “a primavera”, de Vivaldi, ou um trechinho da nona de Beethoven. E aposto que o mesmo imbecil nunca deve ter parado para se perguntar por que, após tanto séculos, continuamos ouvindo essas músicas. Ou lendo Camões, que escreveu os Lusíadas no século XV, XVI, não me lembro bem. Existem obras que se inscrevem numa espécie de imaginário coletivo, não apenas pelas reações apaixonadas que ainda são capazes de gerar, mas, sobretudo, devido à maneira como foram capazes de desafiar a tônica do momento em que se encontravam e gerar diferença, desconforto. Falo isso pensando especificamente em artistas como Machado de Assis, que após tantos anos ainda continua alimentando debates infinitos sobre literatura, e Vincent Van Gogh, que como todos sabem, não vendeu nenhum quadro em vida e hoje é um dos pintores mais importantes do mundo.

Bem, a que ponto eu quero levar esse debate? Não, não estou aqui apenas defendendo o saber institucionalizado (que tem nas universidades seu maior símbolo), mas também uma espécie de autodidatismo “correto” (na falta de um termo melhor). Com isso, quero dizer que somos sim capazes de desenvolver um talento longe do ambiente acadêmico. Veja bem, José Saramago era torneiro mecânico e chegou a Prêmio Nobel de Literatura. Sim, claro, um torneiro mecânico que passava o dia na biblioteca, que nunca negou ter sido um leitor voraz e incansável.

Com isso, quero também redimir minha amiguinha (real e virtual, né) Gabriela Ventura. Outro dia estava zapeando pelos (ótimos) posts do blog dela e me deparei com uma referência a um episódio vivido pela jovem Gaby em seus anos iniciais na Faculdade de Letras, onde nos conhecemos, claro. Quem quiser saber da história na integra, clique aqui.

Sei que não devemos usar exemplos para corroborar argumentações, mas faço questão de dizer que Gaby e José Saramago são para mim, atualmente, as duas pessoas que melhor exemplificam o que quero dizer aqui. Gaby, talvez ainda mais. Acusada de ser indisciplinada, ela é a pessoa mais disciplinada que conheço. Ao terminar a graduação, não tinha apenas um diploma (ainda que esse tenha sido outra novela em particular), mas um verdadeiro currículo de leitora autodidata, que não se intimida ou assusta com nada e que, como eu, acredita que devemos passar pelos antigos e, de certa forma, pagar o tributo quando necessário.

Ok, e o que tem o livro da Ana Paula Maia a ver com isso tudo?

Já vou chegar lá, estou só concluindo o raciocínio. Enfim, quando digo que acho que a culpa do valor exacerbado que damos ao talento é do futebol, estou dizendo que não acredito que exista um talento que funcione sem disciplina, sem o desejo de saber o que fizeram aqueles que também se destacaram no campo e que vieram antes de você. Muitos podem me chamar de maluca ou xiita, como andou sendo a tônica por aqui na última semana, desde a reativação do blog, mas acredito seriamente nisso. Tenha certeza que, muitas vezes, aquele rockstar gringo que você idolatra escuta Bach e Rachmaninoff no conforto do lar.

Tá, vamos falar de Carvão Animal, então.

Ana Paula Maia é jovem, bonita (quem quiser, pode entrar no blog dela e verificar) e escreve bem.  Além disso, é responsável pelo livro que me fez querer transformar esse blog em um espaço dedicado à crítica literária. Carvão Animal é o terceiro livro de uma trilogia (os outros são Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros). Não, ainda não li os outros, mas estou querendo.

Não queria resumir ou mesmo falar muito da narrativa, acho que cada um deveria ler o livro para poder chegar às próprias conclusões, mas sei que é inviável querer resenhar e não falar da trama. Os dois protagonistas da obra possuem um ofício ligado ao fogo, um é bombeiro e o outro trabalha em um crematório. Gente assumidamente inexpressiva, que vive à margem de uma sociedade também inexpressiva. Ok, e o que faz um indivíduo qualquer querer ler esse livro? Acredito que seja a maneira como a obra lida com a finitude do humano. As duas frases que abrem o livro são: “No fim tudo que resta são os dentes. Eles permitem identificar quem você é”. Não existe aqui nenhuma referência ao transcendental, pelo contrário, há um lembrete que toda preciosa matéria de nossos corpos não resiste ao fogo, por maior que seja a ânsia de imortalidade do ser humano.

Há, ao longo do livro, um tom notadamente naturalista, cenas que evocam, sem dúvida, uma brutalidade e uma violência que já foram tão tematizados anteriormente. Isso, no entanto, não tira a força das 158 páginas (que, confesso, li em mais ou menos uma hora), muito menos a originalidade da obra. Se existe um tom naturalista, ele é dosado pela sensibilidade com que a narrativa é conduzida. Mesmo as cenas mais violentas são descritas de uma maneira cinematográfica, quase podemos perceber como os cortes dialogam com aquilo que existe de mais atual no próprio cinema e na literatura.

Enfim, acho que está dando pra perceber que eu não quero lançar mão de nenhum spoiler aqui, né? Ok, vou lançar apenas um: o título da obra não é uma bela metáfora, faz referência ao que resta de um corpo carbonizado. O carvão animal, no fim das contas, somos todos nós.

Há algo na obra que me desagradou? Sim, tenho coração mole, não agüentei ver que um cachorrinho morre num acidente de carro. Mas em momento nenhum tive a impressão de que havia algo dissonante ou ainda, que havia um ponto qualquer que pudesse ser mais bem desenvolvido. Como obra de arte, Carvão Animal é redondo, coeso e tão bem arquitetado que chego ao final desse arremedo de resenha querendo perguntar à autora quantos meses levou a obra para ficar pronta, da maneira como chegou às minhas mãos, tamanho o acabamento que podemos perceber.

Moral da história: até semana que vem pretendo comprar Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros. A não ser que alguém diga que vai me dar de aniversário, hehehehe.

Carta aberta em defesa dos críticos ou em resposta aos comentários

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Após a enxurrada de comentários motivados – não unicamente, claro – pelo último post, venho por meio deste responder algumas pendências e tentar, por fim, me fazer entender. Claro, porque meus planos para o blog incluíam uma resenha de Carvão Animal, e não uma reiteração de coisas que eu acreditava já estarem mais do que claras.

Bem, vamos por partes: o que acabou se tornando o tornando o pivô da discussão foi o livro (ainda não publicado) de autoria de Thiago Luz. A obra em questão, denominada “Bravo! Quando os homens se tornam heróis”, serviu como mote para uma reflexão sobre os rumos da ficção contemporânea brasileira. Minhas opiniões não foram bem recebidas pelo autor do livro, nem por um homônimo de sobrenome Póvoa, que também surgiu em defesa de uma “suposta” literatura pragmática. Sim, claro, após ter respondido ambos, qual não foi minha surpresa ao ver que o autor em questão destilou, no último de seus comentários, um rancor ácido e despropositado contra a minha pessoa. Em momento algum havia eu sido descortês ou mal-educada, apenas, como enfatizei desde o princípio, não gostei em absoluto do livro. Afirmo até que, na atual conjuntura e baseado na versão que li o que se encontra ali está mais próximo de um roteiro do que de um livro.

(Enfim, faço aqui também uma ressalva. Não tenho nada pessoal contra você, Thiago, e sinceramente esperava que uma pessoa em vias de publicar um livro fosse ter uma recepção completamente diferente da opinião sincera de uma especialista. Devo lembrá-lo que publicar um livro, lançar um disco ou mesmo estrelar uma peça teatral é exibir sua produção pessoal para a avaliação pública. Logo, o que eu fiz aqui não difere muito do que o aguarda na materialidade da obra publicada.)

Acredito que, também, parte da revolta se deve ao fato de ter afirmado que havia achado a obra um tanto quanto conservadora. Sim, porque o que faz um livro ser politicamente incorreto não é violência ou vocabulário de baixo calão, mas conteúdo. Devo, mais uma vez, lembrar que Nelson Rodrigues, até hoje conhecido pela imoralidade de suas narrativas, nunca empregou um único palavrão. O que vi foi uma manifestação daquilo que Marcelo Rubens Paiva expressou magistralmente em seu blog do Estadão: “A onda agora é ser bem REAÇA”. Aliás, vou até me furtar a desenvolver qualquer tipo de comentário, mas digo que endosso cada palavra de Rubens Paiva, que acredito que a maioria daqueles que defendem a liberdade individual também são os mesmo que apoiaram (e apoiam) as repressões às manifestações populares.

Chego, enfim, ao ponto nevrálgico dessa reiteração: Qual é a tarefa da crítica? Ou como devem preferir os revoltados, ou reaças de plantão, crítica pra quê?

Claro, se cabe ao tempo separar o que presta e o que não presta, o que fazem os críticos, esses recalcados sem coração que não tem coragem suficiente de escreverem seus próprios livros, comporem suas próprias músicas ou dirigirem seus próprios filmes?

Respondo, humildemente, em nome da classe: Fazemos o trabalho sujo. Parafraseando uma das minhas musas inspiradoras, Flora Süssekind, digo que é a crítica que alimenta a discussão, que é capaz de mostrar o que há nas entrelinhas de uma obra. Sim, quando de fato há algo nas entrelinhas. E quando nos levantamos e dizemos que algo é raso, ou que não suporta o menor peteleco teórico, somos monstros. Não nego, confesso que uma parte de mim até gosta da demonização da figura do crítico. Só preciso deixar uma coisa bem clara, de uma vez por todas: a tarefa da crítica é, sem dúvida, uma escolha. Os maiores teóricos da literatura brasileira não são escritores frustrados, da mesma maneira como não foram Roland Barthes, Paul Válery, Theodor W. Adorno, apenas para citar alguns dos que me acompanham do café-da-manhã ao jantar.  Somos – me incluo, mais uma vez, humildemente ao lado de tais antecessores – leitores. Não meros leitores de folhetim, consumidores de best-sellers, auto-ajuda, Harry Potter, Crepúsculo ou qualquer coisa que possa andar na moda.

Mais uma vez, recorro à Flora Süssekind para corroborar meu ponto de vista:

Fabricam-se nomes e títulos vendáveis, vende-se, sobretudo o nome das editoras, e sua capacidade de descobrir “novos talentos” semestralmente, ao sabor das feiras literárias. E, nesse sentido, formas dissentâneas de percepção, como a crítica, se mostram particularmente incômodas. Formas personalistas e estabilizadoras, ao contrário, se esvaziadas, parecem continuar benvindas. Se adotado o perfil do colunista que “sabe ficar no seu lugar”, que funciona, com voz opiniática, e sem maiores tensões, como moldura quase invisível, inconsequente, para o que o mercado editorial ou o próprio veículo quiser referendar. Se desse lugar sem qualquer ressonância não houver condições reais de intervenção, formulação de questões relevantes e expansão do mínimo espaço público talvez ainda disponível para um exercício crítico que não se confunda inteiramente com busca de prestígio ou com um guia de consumo. Talvez seja necessário, na discussão de um espaço ainda crítico para a crítica, matar mais uma vez Wilson Martins. Já que sua transformação em imago exemplar parece expor inequívoca vontade de retorno a algo próximo à tradição das Belas Letras, a um regime estável e hierarquizado de vozes e gêneros, a regras fixas de apreciação e prática textual, a um apagamento de novos espaços de legibilidade, espaços ainda não demarcados ou nomeados, e sugeridos por formas de compreensão expansivas, e não exclusivas, do campo da literatura. Um desejo de reierarquização e pureza que não parece sem sintonia com o temor de um universo sóciopolítico menos hierarquizado, com a expansão meio informe de uma classe média cujo imaginário não parece ultrapassar uma coleção inesgotável de bens de consumo. E com uma extraordinária expansão das práticas digitais de escrita, acompanhada, paradoxalmente, no entanto, de uma quase invisibilidade coletiva dessas manifestações, de um encolhimento quase ao absurdo da esfera pública.

Idealismo acreditar que meu pobre texto, alvo de tantos comentários que parecem ignorar solenemente seu conteúdo poderia encontrar abrigo na retórica sofisticada daquela que é, na minha opinião, vejam bem, na minha opinião, uma das maiores intelectuais brasileiras, capaz de analisar não apenas seu local de enunciação, mas a reverberação de suas declarações e a cena literária tupiniquim como um todo. Nesse caso, sem problemas, explico objetivamente o que está contido no fragmento supracitado: a inexpressividade da literatura brasileira parece estar também intimamente relacionada à tarefa incômoda do crítico literário. Por isso, de uns tempos pra cá, pudemos observar uma espécie de retorno à crítica elogiosa, ao posicionamento que não causa desconforto, ao que ela denomina de formas estabilizadoras. A crítica não deve ter como função a estabilidade, e sim a instabilidade, a intervenção, a transgressão. Sim, pois seu dever, como ofício advindo da literatura, é dialogar com a expressão artística mais desafiadora de todas. Mais uma vez, a hipérbole anterior é por minha conta e risco, por mais que veja outras formas de arte como a pintura e o cinema como também sendo capazes de tentar traduzir o camoniano desconcerto do mundo, ainda acredito que usar algo tão desgastado como a linguagem para fugir do comodismo da sociedade de consumo é um desafio ímpar.

Se até o presente momento ainda não me fiz clara o suficiente, escolho recorrer a mais um dos pilares de nossa teoria literária, Antonio Candido, na citação de Fernandes Pinheiro, que abre Introdução à literatura brasileira:

os homens têm quase as mesmas ideias acerca dos objetos que estão ao alcance de todos, sobre que versam habitualmente os discursos e escritos, constituindo a diferença na expressão, ou estilo, que apropria as coisas mais comuns, fortifica as mais fracas e dá grandeza às mais simples. Nem se pense que haja sempre novidades para exprimir; é uma ilusão dos parvos ou ignorantes acreditarem que possuem tesouros de originalidade, e que aquilo que pensam, ou dizem, nunca foi antes pensado, ou dito por ninguém.

O rascunho que havia começado para ser o próximo post também explorava essa ideia, mas pelo viés do mestre argentino Jorge Luis Borges, quando ele afirma que a literatura do mundo pode ser resumida a três ou quatro obsessões. Não, não temos nada de original a compartilhar, não podemos ter essa ilusão. A única coisa que pode salvar um livro da superficialidade é, ironicamente, a crítica ou, ainda, a autocrítica.

Para finalizar, irei me dirigir diretamente aos dois Thiagos que tanto ficaram desconfortáveis com minhas afirmações. Não estou escrevendo isso pra convencer ninguém, cada um que sabe de si, para usar uma imagem oriunda da sabedoria popular. Falo, com bastante orgulho, do meu local de enunciação, pois trabalhei bastante para chegar até aqui. Por trabalhei, entendam: li bastante. Li, sem sombra de dúvida, muito mais livros do que ambos juntos. E assumi o ofício de crítica não como uma escritora frustrada, mas como uma leitora apaixonada. Não tenho vergonha de ser taxada de intelectual, pelo contrário. Acho que num país de degredados que sempre fomos, intelectuais são de extrema necessidade. Somos nós que pensamos a sociedade, que escrevemos e que refletimos sobre o que acontece. E sim, no passado, também fomos nós que pegamos em armas e lutamos pela liberdade que hoje temos.

Ah, claro, quanto a “ser uma professora e querer ensinar sobre rock and roll”, fiquem sabendo que sei muito sobre rock, sobre música, que já fiz tudo que todo mundo fez: estudei, fiz aulas, tive bandas, mas abri mão porque não era isso que me fazia feliz. Em momento nenhum resumi o gênero que marcou o século XX ao trinômio “sexo, drogas e rock n’ roll”. Afirmei, e reafirmo, que rock é transgressão, insubmissão e não aceitação dos padrões impostos, coisas que, como também havia afirmado antes, não se encontram nas páginas do seu livro, Thiago. Jornada de superação pessoal, monogamia extremada e valorização da moral não estão em consonância com o que sempre foi pregado pelo rock. Você pode citar quem quiser, até mesmo o ecochato de plantão, Bono Vox, mas isso não muda em nada o fato de que ele também está matando o rock, aliás, desde que o U2 lançou aquele disco patético na década de 90, o Pop. O fato de que hoje em dia exista essa predominância do politicamente correto não anula o caráter transgressor do rock. Aliás, acredito que o próprio Renato Russo concordaria comigo, grande fã de Ramones que era. (Se você quiser entender um pouco mais do que estou falando, leia Mate-me por favor, uma história sem censura do punk.)

Hora de acender uma velinha pra Saint Roland Barthes e encerrar o domingo, né?

O sintoma, o livro e o problema: apontamentos sobre literatura e porvir

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Recentemente, chegou às minhas mãos por meios virtuais o original do livro de um conhecido (que prefiro manter anônimo por razões pessoais, apesar de saber que ele já possui tudo devidamente registrado e reconhecido). Enfim, poderia me manter à parte da questão do juízo de valor da obra, mas acho que opiniões são opiniões, e nada me impede de manifestar a minha.

Bem, o livro (se é que podemos assim chamá-lo) é fraco, fraquíssimo – insisto em dizer. Tudo se resume à narrativa das fictícias desventuras de um ícone imaginário do rock nacional, um misto de Cazuza e Renato Russo com uma dose cavalar de heterossexualidade. Antes de me aprofundar devidamente no que fundamenta minha opinião, afirmarei o seguinte: musicalmente, o livro é fraco. A trama tem como foco o cenário musical brasileiro pós-década de 80, além de tudo aquilo que já conhecemos como suas influências. Não encontramos muito mais do que o falecido Legião Urbana nas páginas da obra. Confesso que não sou grande fã de música brasileira, mais ainda assim me atrevo a perguntar: e o(s) Paralamas do sucesso? Engenheiros do Havaí? Isso apenas para citar os favoritos da mídia e não, por exemplo, o polêmico Camisa de Vênus, conhecido pela maioria da minha geração apenas por ser a “banda do pai da Penélope Nova”, (ex?, sei lá…)VJ da Mtv. Claro, fico no âmbito nacional porque nem quero começar a puxar aquele rosário que sei que preenche os players e ipods da grande maioria dos meus amigos/conhecidos (salvo algumas exceções): Joy Division, The Cure, Depeche Mode, New Order e, óbvio (o rei absoluto de todos nós, Morrisey) The Smiths (Isso porque Bowie é sempre hors concours).

Estou divergindo, claro. Ok, e a literatura, onde fica? Bem, não vou entrar em minúcias do tipo sintaxe, ortografia, estruturação de parágrafos e outros blá blá blás. Como não?, perguntarão aquele que me conhecem. Sou professora de português sim, mas acho que me vejo como doutoranda antes de tudo (Em literatura, por favor!). Continuando, há quem diga que o que valida um livro é seu apelo de mercado. Sinto informar, o que valida (não só um livro, mas qualquer obra de arte) é o tão discutido reconhecimento pelos pares. No mundo da literatura, isso quer dizer que se sua obra é tema de teses, dissertações, comunicações de congresso e etc, tenha certeza que existe algo mais entre as linhas de cada página do que pode supor nossa vã filosofia. Projeto estético, fabulação, diferentes níveis de leitura, narrativas que desafiam os limites de nossas acomodadas imaginações são apenas algumas das características que mantêm, como gosto de dizer, uma obra de pé.

Os mais pessimistas irão perguntar: e o Paulo Coelho na ABL? Eu respondo: a cadeira na ABL foi a prova cabal daquilo que academicamente chamamos de interferência de campo (aliás, acho que quem fala isso é Pierre Bourdieu). O fato de vender milhões de livros mundo afora não faz dele um escritor, muito menos tudo isso que dizem por aí. Seus textos são pobres, pretensiosamente escritos e ainda abusam de referências vazias à literatura de um Oriente que poucos dominam: Pérsia e Turquia, apenas para citar alguns. (ou melhor: o que esperar de uma instituição que já possuía entre seus imortais JOSÉ SARNEY?)

Ainda afirmo mais o seguinte: no dia em que a AUTO-AJUDA for promovida ao estatuto de obra de arte, com a devida licença, farei meu o bordão do punk MATEM-ME POR FAVOR! A literatura é a arte da palavra, é usar a língua fascista de todos os dias para algo que não seja pedir um copo d’água ou ir ao mercado, é, para usar as lindas palavras de Manoel de Barros, desarrumar a linguagem. Me arrisco também a fazer uma profecia: depois de morto Paulo Coelho, não dou dez anos para que sua ficção lhe faça companhia na cova ao lado. Novamente, escuto os mais descrentes: será mesmo? E respondo com outra pergunta: alguém conhece Coelho Neto? Resumindo, o cidadão foi enterrado com pompa e circunstância, como um dos maiores de sua geração (da mesma maneira que Anatole France). Só que o tempo se encarregou de provar que sua obra não resistiria ao mais leve peteleco.

Pode parecer que divergi muito da questão inicial. Bem, talvez não. O que eu ia acrescentar sobre o tal “livro” em questão (que, confesso, li masoquisticamente até o fim) era o seguinte: por mais que meu lado bom ache válido qualquer esforço de escrita, meu lado acadêmico (sim o lado ruim e o predominante) precisa dizer que um livro não é uma história, não é uma narrativa e menos ainda é uma lição de moral de qualquer natureza (ainda que às avessas), recheada de referências vazias, diálogos que se limitam a reproduzir o discurso politicamente correto divulgado pela mídia brasileira (liderada, sem dúvida, pela nojenta Veja). Sinto muito, um livro não é Times New Roman, índice ou capítulo.

O que aconteceu foi que toda a reflexão gerada pelo tal “livro” acabou tendo como ponto final a questão: o que é literatura hoje? Depois de Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Garcia Márquez, Borges, Saramago, William Faulkner, Roberto Bolaño, o que significa escrever um livro? É provável que eu não saiba a melhor maneira de responder a essa pergunta. É provável que eu soe pretensiosa, mas é um risco que prefiro correr.

De tudo que se produz hoje no Brasil, em matéria de literatura poucos são os autores que possuem, ouso afirmar, um projeto estético real e ainda assim conseguem disputar um lugar nas prateleiras com os livros de auto-ajuda e/ou ficções descartáveis. Confesso que gosto (e muito) do Bernardo Carvalho, (ainda) não li Lourenço Mutarelli e adoro Marçal Aquino (caso sério, adoro mesmo!). Consigo ver neles (e em muitos outros que não citei) uma escrita que comporta discussões, análises, leituras, sem se distanciar daquilo que nos faz de fato chegar ao final de um livro qualquer: uma promessa, uma atração magnética latente em cada uma das páginas. (Isso me ocorreu principalmente depois de ter lido as quase 900 páginas de 2666, romance de publicação póstuma do chileno Roberto Bolaño, em menos de 1 semana)

Por mais que sejamos capazes de nos lembrar o título de pelo menos um livro que fez nosso coração bater mais forte, não posso me furtar afirmar que a literatura, da maneira como a conhecemos, está morrendo. Sinto a cada dia como se fosse a advogada de uma arte agonizante.

As pessoas dizem por aí que o rock morreu, mas quem anda dando seus últimos suspiros é a literatura. (Há alguns anos, em sua coluna semana em O Globo, Arthur Dapieve escreveu que após tudo que foi dito sobre a música pop e seus hits de cinco minutos estarem fadados à morte, surgia a inglesa Lily Allen, provando que todos estavam errados. Espero de coração estar errada e ter a oportunidade de escrever minha própria retratação, um dia, quem sabe?) Poderia fazer uma piada ruim e dizer que o arremedo de livro que me dei o trabalho de ler é a tampa do caixão de Homero. O triste seria, porém, dizer que não é apenas uma piada na minha opinião. O sofrível original que li é o sintoma mais claro disso. Hoje não há mais espaço para uma literatura como a que já houve antes. Veja bem, como não quer dizer igual, mas da mesma maneira. Não consigo imaginar, por exemplo, abrir o jornal num sábado qualquer e ver estampado o rosto de um “novo” Jorge Luis Borges em todos os cantos do (im)popular Prosa e Verso. Não porque nossa literatura viva, como Portugal, à espera de D. Sebastião, na expectativa da emergência de um novo grande nome.

Não acredito que somos órfãos a esse ponto, apenas sabemos que nossa filiação se encontra no passado. O que quero dizer é que estamos vivendo um momento divisor de águas. Umberto Eco e Jean-Claude Carrière afirmam que não devemos contar com o fim do livro. Não estou apenas de acordo, também acrescento: os livros sempre existirão, o que irá mudar é seu conteúdo.

Irá não, já está mudando. Muitos são os que estão de lançando ao desafio de escrever um livro no novo século. Algo que apesar de toda a sedução técnico-científica, consiga propor uma estética, desafie nossa imaginação acostumada à visualidade do mundo. Algo que você leia no e-book e ainda assim faça questão de comprar o original. Me disseram até que muitos (apesar de não tão conhecidos) são os escritores que já estão conseguindo fazer algo diferente.

Bem, só posso dizer, para concluir, que meu exemplar de Carvão Animal chegou hoje e ainda não tive tempo de ler. Quem sabe o próximo post seja uma resenha sobre ele?

Limpando a poeira

Parte da graça de ter um blog é saber que meia dúzia de amigos vai, talvez, perder meia hora pra ler qualquer bobagem que escrevermos.

Whatever…

Confesso que parte da graça de escrever algo aqui é o desejo bizarro de compartilhar uma nova fase da minha vida: mudei de cidade e estou construindo um novo lar.

oh, isso não é lindo?

Bem, é. Confesso que nunca fui tão feliz. Agora, além de espaço pros livros, tenho paz, silêncio, amor, carinho, da hora do café ao jantar.

Sim, claro, mas as agruras da vida a dois existem até para casais perfeitos como nós. Ou deveria dizer que existem para mim, pois eu que sou a parte neurótica. Enfim, estou divergindo…

Quando comecei a encaixotar minhas porcarias, meus 50 pares de sapatos, infinitas bolsas e os 1000 livros, não tinha parado pra pensar em como tudo poderia mudar. Morei a vida inteira em Niterói, no conforto de um apartamento chefiado por uma mãe completamente louca e uma gata cheia de vontades. Como filha única, sempre ocupei todo espaço que podia, não só físico, mas também sentimental. Nas crises mais loucas de TPM, cheguei a acusar minha mãe de dar mais atenção pro gato que pra mim. E isso não foi tudo. Quando ingressei no mestrado, além de alimentar o orgulho da mamãe, resolvi engordar as prateleiras que restavam. Creio que em dois anos e (exatos!) seis meses, dupliquei a quantidade de livros, dvds, papéis e etc. Cheguei a viajar pra Argentina só pra comprar as famigeradas Obras Completas do Borges.

Voltando ao tema real, o que havia de reconfortante na minha casa não era só a familiaridade, a tranquilidade de saber que nada mudava muito com o passar dos dias. Era a impossibilidade da divisão. Sim, mea culpa. Sou egoísta. Ora bolas, como poderia ser diferente? Nunca precisei dividir nada.

Quando comecei a desempacotar minhas tranqueiras (já devidamente selecionadas pelo olhar mais crítico que uma libriana poderia ter, enfim), me dei conta de uma coisa: a partir de agora, não existe mais “eu”. Empilhei uns livros na bancada, olhei em volta, e me dei conta do óbvio mais ululante: deveria dividir o espaço, pensar nas coisas dos dois. Parece idiota, afinal, já tínhamos escolhidos tintas, móveis, tudo, sempre juntos. Só que ter a certeza é muito mais…digamos assim…diferente. E, para a minha própria surpresa, não precisei planejar nada. Portas de armário decidiram que roupas iriam abrigar, livros foram indo pra estante, a poeira foi saindo dos cantinhos. Os dvds se misturaram sozinhos nas prateleiras, sem precisar fazer força.

Digo também que, depois da semana passada, ainda cheguei a me referir à “casa do André”. Ele me emendou, sutil, dizendo que agora era “nossa”. E a ficha foi caindo, devagar. E eu fui, lentamente, não só deixando espaço para ele, mas pensando naquele espaço como algo nosso. Não tem nada para ser dividido. Até a biblioteca agora é dos dois. Meus livros poeirentos e fedorentos também são seus, chéri.

… …

a verdade é que eu não existo. sou transparente, inodora, insípida e incolor. E feito água,  vou escorrer pelas janelas, formar poças no cantos para, depois, evaporar.

E nem a mais leve sombra do que eu fui irá permanecer, pois, afinal nem da chuva mais forte o verão mais quente guarda qualquer traço…

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