(ah, claro, e a resenha de Carvão Animal, da Ana Paula Maia)
(O povo clama por mais uma polêmica, e quem sou eu para negar? Após passar o feriado e mais um dia de cama, me comunicando através de gemidos e resmungos, sigo sem febre e encontro forças para escrever mais um textinho…)
Após tanto falatório gerado por uma obra ainda no prelo (comentários e dois posts) acho que a única citação possível vem do velho Camões, no canto X dos Lusíadas:
No mas, Musa, no mas, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Da austera, apagada e vil tristeza.
(Ok, piadas à parte. Aliás, piadas internas à parte)
Motivada por alguns comentários transtornados (e equivocados) que parecem refletir uma espécie de consenso, venho por meio de outro post questionar o conceito que temos de artista na sociedade tupiniquim de hoje.
Para começar, vou colocar a culpa na cultura do futebol. Não porque o esporte me cause qualquer tipo de ojeriza, mas porque o padrão que parece se reproduzir em outros campos tem sua origem na crença popular do talento nato “para jogar bola”. Até acredito que podemos ter uma predisposição pessoal, ou alguma espécie de facilidade para algumas atividades, como cantar, tocar um instrumento, praticar esportes ou até mesmo escrever; no entanto, não creio que isso possa ser atribuído unicamente ao talento. Há muito se sabe que tudo é fruto de prática e estudo, não apenas os esportes, a música ou a escrita. Aliás, acredito que essa diferença de concepção também sirva para explicar o abismo que existe entre o futebol da nossa terrinha e o que é posto em prática pelos times europeus. Jogamos melhor? Talvez jogássemos, se treinássemos mais, e acho que as últimas eliminações do Brasil nas Copas e demais competições apenas corroboram isso. Talento existe, não nego, mas não é nada sem treino e disciplina.
Acho que a reprodução desse ponto de vista também se dá em outros campos. Na literatura, na música, no teatro, aliás, nas artes cênicas em geral. Explico: quem já teve a oportunidade de assistir àquele programa “Inside Actor’s Studio”, vai saber do que estou falando. Quando atores gringos como Jennifer Connelly e Matt Damon, ou mesmo diretores como Woody Allen, abrem a boca o que ouvimos são referências a livros, estudos em Yale, Harvard, Stanford, oficinas de artes cênicas aliadas à disciplina e muitos ensaios. (Talvez nem seja o caso específico do Woody Allen, mas sempre que escuto suas entrevistas me chama a atenção o nível de leitura mantido pelo diretor, que não fica atrás dos maiores leitores que conheço.)
Quando vemos entrevistas de atores brasileiros (salvo aquelas exceções, como Paulo José, Fernanda Montenegro e mais outros das antigas, que tinham essa mesma concepção), há muito pouco ou quase nada disso. Há, sim, uma valorização exacerbada do talento, que parece querer justificar o autodidatismo, como se, ainda nos dias de hoje, ser ator fosse uma espécie de ofício escolhido pelos deuses. Ou deveria dizer musas?
Enfim, o mesmo se dá também no campo musical, onde se reproduzem bandas cada vez mais rasas, com músicos cada vez mais mal-formados. O tipo de gente que, como diriam meus (inúmeros) amigos da Faculdade de música, chega no dia do teste de habilidade específica com uma havaiana no pé, um violão sem capa, dizendo solenemente para uma banca de professores que vai tocar “Legião Urbana”. Odeio dar notícias ruins a pessoas legais, sinto informar, mas ter uma banda não é o mesmo que ser músico.
Creio que a essa altura algumas pessoas devem estar se perguntando o porquê desse post. Bem, meu objetivo não é fazer com que mais algumas pessoas se sintam ofendidas, contrário ao que possa parecer. Tenho sim, conforme afirmei, o desejo de compreender como é que as pessoas lidam com essa imagem do artista hoje.
Após escutar diferentes comentários, cheguei à conclusão que a famigerada “perda da aura”, de Charles Baudelaire ainda não cruzou o Atlântico. Claro, explico. Mas antes, cito o poeta francês mais atual do século XIX:
Você por aqui, meu caro? Você, num lugar suspeito! Você, o bebedor de quintessências! Você, o comedor de ambrosia? Em verdade, tenho de surpreender-me!
– Meu caro, você conhece meu pavor pelos cavalos e pelos carros. Ainda há pouco, enquanto eu atravessava a avenida, com grande pressa, e saltitava na lama por entre este caos movediço em que a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a lama da calçada. Não tive coragem de juntá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que deixar que me rompessem os ossos. E depois, pensei, há males que vêm para bem. Posso agora passear incógnito, praticar ações vis e me entregar à devassidão, como os simples mortais. E eis-me aqui, igualzinho a você, como vê!
– Você deveria ao menos mandar anunciar esta auréola, ou mandar reavê-la pelo comissário.
– Ora essa, não! Me sinto bem aqui. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me entedia. E também, penso com alegria que algum poeta ruim há de juntá-la e vesti-la impudentemente. Fazer alguém feliz, que prazer! E sobretudo um feliz que vai me fazer rir! Pense em X ou em Z, puxa! Que divertido vai ser!
O poema em prosa supracitado se tornou uma referência obrigatória sobre a postura do poeta moderno. A aura, ou auréola, que diferenciava o poeta das pessoas comuns caiu na lama e lá ficou. Isso quer dizer que a idealização que envolvia o ofício da escrita (em especial a poesia) não existe mais. O poeta não é alguém que foi escolhido pelas musas para receber inspiração, mas uma pessoa como nós.
Enfim, também não vou me estender num debate que pertence a Walter Benjamin, mas só quero deixar claro o seguinte: não existe propósito para revestirmos de verniz divino pessoas que, apenas por terem a coragem de vir a público, não parecem valorizar em nada seus respectivos campos. Não adianta querer ser ator, se tudo que você assiste é novela e “malhação”, não adianta querer ser músico e só ouvir “restart” e “fresno”.
O caso da música, em especial, rende um debate interessante. Qualquer imbecil é capaz de cantarolar “a primavera”, de Vivaldi, ou um trechinho da nona de Beethoven. E aposto que o mesmo imbecil nunca deve ter parado para se perguntar por que, após tanto séculos, continuamos ouvindo essas músicas. Ou lendo Camões, que escreveu os Lusíadas no século XV, XVI, não me lembro bem. Existem obras que se inscrevem numa espécie de imaginário coletivo, não apenas pelas reações apaixonadas que ainda são capazes de gerar, mas, sobretudo, devido à maneira como foram capazes de desafiar a tônica do momento em que se encontravam e gerar diferença, desconforto. Falo isso pensando especificamente em artistas como Machado de Assis, que após tantos anos ainda continua alimentando debates infinitos sobre literatura, e Vincent Van Gogh, que como todos sabem, não vendeu nenhum quadro em vida e hoje é um dos pintores mais importantes do mundo.
Bem, a que ponto eu quero levar esse debate? Não, não estou aqui apenas defendendo o saber institucionalizado (que tem nas universidades seu maior símbolo), mas também uma espécie de autodidatismo “correto” (na falta de um termo melhor). Com isso, quero dizer que somos sim capazes de desenvolver um talento longe do ambiente acadêmico. Veja bem, José Saramago era torneiro mecânico e chegou a Prêmio Nobel de Literatura. Sim, claro, um torneiro mecânico que passava o dia na biblioteca, que nunca negou ter sido um leitor voraz e incansável.
Com isso, quero também redimir minha amiguinha (real e virtual, né) Gabriela Ventura. Outro dia estava zapeando pelos (ótimos) posts do blog dela e me deparei com uma referência a um episódio vivido pela jovem Gaby em seus anos iniciais na Faculdade de Letras, onde nos conhecemos, claro. Quem quiser saber da história na integra, clique aqui.
Sei que não devemos usar exemplos para corroborar argumentações, mas faço questão de dizer que Gaby e José Saramago são para mim, atualmente, as duas pessoas que melhor exemplificam o que quero dizer aqui. Gaby, talvez ainda mais. Acusada de ser indisciplinada, ela é a pessoa mais disciplinada que conheço. Ao terminar a graduação, não tinha apenas um diploma (ainda que esse tenha sido outra novela em particular), mas um verdadeiro currículo de leitora autodidata, que não se intimida ou assusta com nada e que, como eu, acredita que devemos passar pelos antigos e, de certa forma, pagar o tributo quando necessário.
Ok, e o que tem o livro da Ana Paula Maia a ver com isso tudo?
Já vou chegar lá, estou só concluindo o raciocínio. Enfim, quando digo que acho que a culpa do valor exacerbado que damos ao talento é do futebol, estou dizendo que não acredito que exista um talento que funcione sem disciplina, sem o desejo de saber o que fizeram aqueles que também se destacaram no campo e que vieram antes de você. Muitos podem me chamar de maluca ou xiita, como andou sendo a tônica por aqui na última semana, desde a reativação do blog, mas acredito seriamente nisso. Tenha certeza que, muitas vezes, aquele rockstar gringo que você idolatra escuta Bach e Rachmaninoff no conforto do lar.
Tá, vamos falar de Carvão Animal, então.
Ana Paula Maia é jovem, bonita (quem quiser, pode entrar no blog dela e verificar) e escreve bem. Além disso, é responsável pelo livro que me fez querer transformar esse blog em um espaço dedicado à crítica literária. Carvão Animal é o terceiro livro de uma trilogia (os outros são Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros). Não, ainda não li os outros, mas estou querendo.
Não queria resumir ou mesmo falar muito da narrativa, acho que cada um deveria ler o livro para poder chegar às próprias conclusões, mas sei que é inviável querer resenhar e não falar da trama. Os dois protagonistas da obra possuem um ofício ligado ao fogo, um é bombeiro e o outro trabalha em um crematório. Gente assumidamente inexpressiva, que vive à margem de uma sociedade também inexpressiva. Ok, e o que faz um indivíduo qualquer querer ler esse livro? Acredito que seja a maneira como a obra lida com a finitude do humano. As duas frases que abrem o livro são: “No fim tudo que resta são os dentes. Eles permitem identificar quem você é”. Não existe aqui nenhuma referência ao transcendental, pelo contrário, há um lembrete que toda preciosa matéria de nossos corpos não resiste ao fogo, por maior que seja a ânsia de imortalidade do ser humano.
Há, ao longo do livro, um tom notadamente naturalista, cenas que evocam, sem dúvida, uma brutalidade e uma violência que já foram tão tematizados anteriormente. Isso, no entanto, não tira a força das 158 páginas (que, confesso, li em mais ou menos uma hora), muito menos a originalidade da obra. Se existe um tom naturalista, ele é dosado pela sensibilidade com que a narrativa é conduzida. Mesmo as cenas mais violentas são descritas de uma maneira cinematográfica, quase podemos perceber como os cortes dialogam com aquilo que existe de mais atual no próprio cinema e na literatura.
Enfim, acho que está dando pra perceber que eu não quero lançar mão de nenhum spoiler aqui, né? Ok, vou lançar apenas um: o título da obra não é uma bela metáfora, faz referência ao que resta de um corpo carbonizado. O carvão animal, no fim das contas, somos todos nós.
Há algo na obra que me desagradou? Sim, tenho coração mole, não agüentei ver que um cachorrinho morre num acidente de carro. Mas em momento nenhum tive a impressão de que havia algo dissonante ou ainda, que havia um ponto qualquer que pudesse ser mais bem desenvolvido. Como obra de arte, Carvão Animal é redondo, coeso e tão bem arquitetado que chego ao final desse arremedo de resenha querendo perguntar à autora quantos meses levou a obra para ficar pronta, da maneira como chegou às minhas mãos, tamanho o acabamento que podemos perceber.
Moral da história: até semana que vem pretendo comprar Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e O trabalho sujo dos outros. A não ser que alguém diga que vai me dar de aniversário, hehehehe.